sábado, 25 de julho de 2009

38


gotas de tempo escorrem
na memória que é agora vasta
saboreio o sal que é sol e calor
e esta empinada proa não hesita
avança impune não se detém

trinta e oito vagas naveguei
vi ser navio a barcaça
vi negro o mar e pérfido o céu
tempestades mensageiras de dor
vi lá longe onde o sol dorme
uma estrela que não cai
diariamente se levanta
sorri baila sedutora diz
amanhã voltarei amanhã estarei aqui
e não tiro os olhos do azul
sei que vai brilhar sei que vai dançar
amanhã

quando as vagas correrem
o casco do navio
e mais não haja para navegar
haverá sempre céu
haverá sempre a estrela
que não cai
que não despe o brilho
sedutora
e os meus olhos no azul

segunda-feira, 25 de maio de 2009

revelação


afunila a estrada

entranha-se a vertigem

o corpo vibra

speed

canta rouco o motor

serpenteia o asfalto

riscam-se as luzes

speed

apressa-se o sangue

enlaça-me a noite

namora-me o metal

speed

provoco a sorte

curva recta curva

diluem-se as rodas

speed

suplica o corpo

busca o limite

acelero mais

speed

oiço a música motor

sinto a força curva

fecho os olhos

speed

domingo, 24 de maio de 2009

um sopro de verde


nesse banal ramo

cansativo intenso

rubro

inquieta-se o olhar

busco um pouco

mais

um pequeno passo

além do vermelho

óbvio

singelo sinal de esperança!

insinua-se a cor

promessa

é um sopro de verde

janela que se abre

gentil

e agora vejo mais

para lá do vermelho

gasto

degusto o sabor do momento

algo mais além do rubro

óbvio

um vivo universo palpita

sente-se ouve-se lê-se

diferente

 

sexta-feira, 24 de abril de 2009

LIBERDADE


do primaveril horizonte

vem o inefável apelo

as grades partem-se

neste abril que canto

de abril a palavra sem medo

cor de cravo tingida

dos dedos desabrocha

o protesto canção notícia

e a voz

hino surdo ontem

hoje de um povo o clamor

morena a vila grândola

desperta o grito a melodia

solta asas a gaivota

voa agora

de vento as asas

do povo mar o coração

e a voz

de incontido júbilo rouca

embriagada repete a palavra

surdina de peitos coragem

o cárcere enfim rebenta

das gargantas ecoa

LIBERDADE

nos muros pinta-se

LIBERDADE

tatua-se no peito memória

para que o tempo não apague

para que não esqueça

para que seja mimada

amada

para não ser nunca a página

do livro da história arrancada

domingo, 8 de março de 2009

mulher


a força das ondas

a beleza da seara

a frescura da brisa

a doçura do amor

mulher

 

mulher mãe perto de mim

mulher pai no calor de áfrica

mulher mulher perto de mim

mulher girafa na birmânia

mulher beleza perto de mim

mulher objecto na tailândia

mulher sol perto de mim

mulher dor no bairro do cerco

mulher caminho perto de mim

mulher sem rumo em nova iorque

mulher sorriso perto de mim

mulher bomba na palestina

mulher cravo perto de mim

mulher burka no irão

mulher vida perto de mim

mulher geisha no japão

mulher poema perto de mim

mulher soldado em israel

 

mulher beijo

mulher mundo

para mim mulher

 

simplesmente

docemente

MULHER

quarta-feira, 4 de março de 2009

geometrias


linhas ângulos
reflexos
de ilusão espelhos
irónicos
côncavos convexos
mentiras
observo lapsos reais
ali
sorrisos mordazes
rectas sem fim
cruzam a emoção
espelhos
audazes
desafiam aqui
a razão
junto peças
soltas no espelho
reflexos mentira
sem fim
busco nas linhas
a razão angular
caminho o meu
por trás
do espelho

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

tão só


tão só atrás desses montes
confidencio aos meus botões
e a um estranho que passa
os meus medos
desilusões

tão só atrás dos montes
bebo a melancolia
dos filhos lá longe
ilusão de um regresso
vai acontecer um dia

tão só em trás-os-montes
observo o estranho que passa
falo do caminho a seguir
não do meu sem saída
frio o tempo que me trespassa

domingo, 22 de fevereiro de 2009

uma vida no olhar


semicerro os olhos e vejo
traços marcas borrões
despojos dispersos
um viver que esmorece
tic tac tic tac
o rosto marcado
persiste insiste subsiste
rugas de labor
histórias das horas
do sumo da vida
o suor do tempo escorre
na simples rotina
dos dias iguais
e a memória esvai-se
tic tac tic tac tic tac

e o vigor do olhar 
não é mais que uma ilusão
vai-se desfolhando
ao ritmo do cruel tic tac

sábado, 21 de fevereiro de 2009

noite púrpura


a noite púrpura abençoa 
rasga-se o pano e a luz ofusca
os braços enlaçam-se sequiosos
um frémito guia os dedos nos corpos
a noite púrpura beija os amantes
enebriados no quente odor do desejo
a língua sorve cada gota de emoção
cada lágrima de prazer
cada arrepio da pele
 e os corpos buscam-se às cegas
num tocar insano que ecoa na noite
numa amálgama de sentidos
sentires agora um corpo apenas
conjugação singular que a paixão fundiu

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

a boca


um sussurro
um beijo
o silêncio
fruto de desejo
pomo de confidências
torvelinho de sabores
hino à perfeição
no verbo no silêncio
impulso de um beijo
em cada palavra
em cada mover
irreflectido
dos lábios

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Sente


sente

o impulso da mão que se estende
o louco sangue que corre em ardor
paredes meias com a pele em torpor

sente

os dedos que mapeiam teu corpo
e registam cada poro cada sinal
abre-se o teu íntimo ao beijo digital

sente

lábios rubros palpitam
suores atrevidos esquentam
os corpos que agora rebentam

sente

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

bonança


o gotejar que avassala a alma
silencia-se por instantes
o negro céu abre-se irónico
entrevê-se um sol tímido
que parte

os tons de esperança
luzem a oeste
pincelam a tela horizonte
e o sol que se vai
sorri e acena cúmplice

recomeça o gotejar
a tristeza agita-se em mim
e o  sol tímido no céu
deixa  secreta a promessa
de uma nascente bonança

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

ao tempo


ao tempo
que corre
se esvai
e se esfuma
ao tempo
que é vento
é sol
e é espuma
ao tempo
que é vida
e à morte 
convida
ao tempo
que é tudo
e é nada
contudo
ao tempo 
cruel
que da vida 
faz fel
ao tempo
sem tempo
fugaz 
e eterno
ao tempo
o eterno
que a morte
anuncia
ao tempo
que eu mato
e fingindo
não passa
ao tempo 
que passa
e no fim
me abraça




sábado, 7 de fevereiro de 2009

where is my love (ao entardecer)


a paz chega em desenhos riscados
pelo arco dos violinos
a voz pergunta
where is my love?
o suave rouco desespero
enche-me de quietude

encontro os meus amores
nos pontos cardeais

incertezas permanecem
no corpo agrilhoado
em busca dessa
trémula ânsia de paz

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

ouvindo a telefonia


um tremor inflama-me o estômago
revolvo-me oh indecente deleite
sinfonia esta que embriaga
e o corpo ondula gira extasia
e a alma funde-se neste ópio
que em delícia
oiço mastigo inalo

invoco todos os sentidos e forças
todos os deuses e naturezas
todos os demónios e feitiços
que me visitam travessos
saltando de violinos em fúria
e num circunspecto clarinete
há piruetas de um anjo
com cara de Lou Reed


e a orgia termina num allegro vivace
que amalgamou desejo sonho bebedeira tudo
em singela melodia
descuidadamente vertida de um rádio


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

a pele


tocar
sentir
A PELE

sensações em turbilhão
quente suave
vôo de ave
táctil oração
o toque da pele
em ti

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

o amor na cidade triste


essa canção calcorreia
ruas da cidade escura
trauteio dormente
melodia kitsch
amores imperfeitos
embriaguês do momento
e o peito aberto

ruas húmidas frias
e a luz pálida que fere
e incendeia a dor
que se instala
no pulsar dolente
da cidade triste

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

a flauta


nesta insónia que nos fere
um brilho de quem tem ainda o raro poder da utopia
aclara a teimosa noite

nesta insónia que nos divide
uma flauta ecoa e desperta um pouco mais os sentidos
e sei agora por onde vou

nesta insónia que também nos une
partilho contigo um resto do sonho que ainda vibra
no mais íntimo de nós


(ao meu amigo Alexandre)

the voice














a voz que ecoa doce
e baila provocando
os meus sentidos
inertes moribundos?
a voz doce serpenteia
agiganta-se cá dentro
desperta um adolescente
arrepio no corpo meu?
verde o manto
talvez olhar
ilusão talvez
dúvida atroz?
um universo
inverso do que foi
busca a ordem
a resposta?