terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

tão só


tão só atrás desses montes
confidencio aos meus botões
e a um estranho que passa
os meus medos
desilusões

tão só atrás dos montes
bebo a melancolia
dos filhos lá longe
ilusão de um regresso
vai acontecer um dia

tão só em trás-os-montes
observo o estranho que passa
falo do caminho a seguir
não do meu sem saída
frio o tempo que me trespassa

domingo, 22 de fevereiro de 2009

uma vida no olhar


semicerro os olhos e vejo
traços marcas borrões
despojos dispersos
um viver que esmorece
tic tac tic tac
o rosto marcado
persiste insiste subsiste
rugas de labor
histórias das horas
do sumo da vida
o suor do tempo escorre
na simples rotina
dos dias iguais
e a memória esvai-se
tic tac tic tac tic tac

e o vigor do olhar 
não é mais que uma ilusão
vai-se desfolhando
ao ritmo do cruel tic tac

sábado, 21 de fevereiro de 2009

noite púrpura


a noite púrpura abençoa 
rasga-se o pano e a luz ofusca
os braços enlaçam-se sequiosos
um frémito guia os dedos nos corpos
a noite púrpura beija os amantes
enebriados no quente odor do desejo
a língua sorve cada gota de emoção
cada lágrima de prazer
cada arrepio da pele
 e os corpos buscam-se às cegas
num tocar insano que ecoa na noite
numa amálgama de sentidos
sentires agora um corpo apenas
conjugação singular que a paixão fundiu

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

a boca


um sussurro
um beijo
o silêncio
fruto de desejo
pomo de confidências
torvelinho de sabores
hino à perfeição
no verbo no silêncio
impulso de um beijo
em cada palavra
em cada mover
irreflectido
dos lábios

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Sente


sente

o impulso da mão que se estende
o louco sangue que corre em ardor
paredes meias com a pele em torpor

sente

os dedos que mapeiam teu corpo
e registam cada poro cada sinal
abre-se o teu íntimo ao beijo digital

sente

lábios rubros palpitam
suores atrevidos esquentam
os corpos que agora rebentam

sente

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

bonança


o gotejar que avassala a alma
silencia-se por instantes
o negro céu abre-se irónico
entrevê-se um sol tímido
que parte

os tons de esperança
luzem a oeste
pincelam a tela horizonte
e o sol que se vai
sorri e acena cúmplice

recomeça o gotejar
a tristeza agita-se em mim
e o  sol tímido no céu
deixa  secreta a promessa
de uma nascente bonança

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

ao tempo


ao tempo
que corre
se esvai
e se esfuma
ao tempo
que é vento
é sol
e é espuma
ao tempo
que é vida
e à morte 
convida
ao tempo
que é tudo
e é nada
contudo
ao tempo 
cruel
que da vida 
faz fel
ao tempo
sem tempo
fugaz 
e eterno
ao tempo
o eterno
que a morte
anuncia
ao tempo
que eu mato
e fingindo
não passa
ao tempo 
que passa
e no fim
me abraça




sábado, 7 de fevereiro de 2009

where is my love (ao entardecer)


a paz chega em desenhos riscados
pelo arco dos violinos
a voz pergunta
where is my love?
o suave rouco desespero
enche-me de quietude

encontro os meus amores
nos pontos cardeais

incertezas permanecem
no corpo agrilhoado
em busca dessa
trémula ânsia de paz

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

ouvindo a telefonia


um tremor inflama-me o estômago
revolvo-me oh indecente deleite
sinfonia esta que embriaga
e o corpo ondula gira extasia
e a alma funde-se neste ópio
que em delícia
oiço mastigo inalo

invoco todos os sentidos e forças
todos os deuses e naturezas
todos os demónios e feitiços
que me visitam travessos
saltando de violinos em fúria
e num circunspecto clarinete
há piruetas de um anjo
com cara de Lou Reed


e a orgia termina num allegro vivace
que amalgamou desejo sonho bebedeira tudo
em singela melodia
descuidadamente vertida de um rádio


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

a pele


tocar
sentir
A PELE

sensações em turbilhão
quente suave
vôo de ave
táctil oração
o toque da pele
em ti

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

o amor na cidade triste


essa canção calcorreia
ruas da cidade escura
trauteio dormente
melodia kitsch
amores imperfeitos
embriaguês do momento
e o peito aberto

ruas húmidas frias
e a luz pálida que fere
e incendeia a dor
que se instala
no pulsar dolente
da cidade triste

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

a flauta


nesta insónia que nos fere
um brilho de quem tem ainda o raro poder da utopia
aclara a teimosa noite

nesta insónia que nos divide
uma flauta ecoa e desperta um pouco mais os sentidos
e sei agora por onde vou

nesta insónia que também nos une
partilho contigo um resto do sonho que ainda vibra
no mais íntimo de nós


(ao meu amigo Alexandre)

the voice














a voz que ecoa doce
e baila provocando
os meus sentidos
inertes moribundos?
a voz doce serpenteia
agiganta-se cá dentro
desperta um adolescente
arrepio no corpo meu?
verde o manto
talvez olhar
ilusão talvez
dúvida atroz?
um universo
inverso do que foi
busca a ordem
a resposta?